sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Plácidos & Oníricos


Esse povo aí é a família Kogu, bravos imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil em busca de novas oportunidades. Criaram um verdadeiro enclave neste tronco, onde nascem, vivem e morrem como qualquer outro ser vivente. Medrosos e tímidos, só andam assim, em bandos, agarrados uns aos outros, y con nosotros nuestros muertos, pa que nadie quede atrás. Ou, quem sabe, impedir a entrada de estranhos que perturbem a unidade do clã. Como as famílias reais, acabam ficando albinos por não se casarem fora da família. São belos de olhar, podem ser bons para comer e oferecem ainda outros prazeres para quem sabe distinguir os plácidos dos oníricos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A pedidos, ele outra vez



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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Exibicionismo alado

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Não tem jeito, estou igual àquelas personagens do Hitchcock, cercadas de pássaros por todos os lados. Outro dia mesmo fui ao final do Leblon fotografar umas ondas (vocês já perceberam que sou viciado em ondas...) para aproveitar uma segunda-feira de folga. Vento médio, bastante espuma, uns respingos mais fortes, sentei no muro de pedra que avança para o mar e ali me quedei a apreciar a força da natureza. Ao chegar em casa e passar as imagens para o computador, dei de cara com esse (ou essa) intruso, que atravessou na frente da onda exatamente na hora em que eu fotografava. Exibicionismo alado, essa é novidade para mim!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Bem-vindo, Ollie, mas...

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Acordei com ruídos na cozinha. Ao chegar lá, deparei-me com Ollie, o sanhaço que habita a parte de trás do ar condicionado de meu quarto. Há muito não o via, devia andar ocupado atrás das sanhaças aqui da rua. Assustado, Ollie não conseguia sair porque as roupas do varal tapavam a janela. Sem fazer barulho, baixei o varal, mas ainda assim Ollie não acertava com a saída. Tive então que pegar uma vassoura, e, com muito jeito, levei-o até lá. Mais tarde, deitado na cama, me dei conta de que o sanhaço não entrara por acaso nem estava ali perdido. Na verdade, conforme me contou a empregada de manhã, ele já freqüenta nossa cozinha com ares de anfitrião. Bem-vindo, Ollie, digo eu, mas faça o favor de não cagar em nossa roupa limpa...

sábado, 24 de novembro de 2007

O passado, o futuro

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A Urca é, sem dúvida, um dos recantos mais pitorescos do Rio de Janeiro. Eu ia dizer agradáveis, mas depois da minha visita ao bairro, na última sexta-feira, fiquei em dúvida. O cheiro de esgoto ao longo da orla era quase insuportável. Será que os moradores já se acostumaram? Ninguém vai reclamar? Como é possível que um pequeno paraíso como aquele exale uma catinga tão fétida? Cadê o prefeito desta cidade afogada em bosta?
Indiferente ao terrível fedor, uma dupla familiar aproveitava a manhã luminosa com planos diferentes. Se o pai insistia na lição de pesca, o filho preferia acompanhar ao longe o decolar dos aviões no Santos Dumont. O passado e o futuro, lado a lado, enquanto minha câmera brinca de ser o presente, o aqui, o agora.



sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Incesto cromático

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Bem perto da Árvore dos Pássaros, a que me referi em outro post sobre o JB, há uma outra que exibe tronco de belíssimas cores, principalmente durante a primavera/verão. Talvez seja uma ebúrnea patativa, uma paupérrima peregrina ou ainda um exórdio notabilíssimo, não me perguntem o nome científico já que os considero todos iguais e muito engraçados, e por isso resolvi criar os meus próprios. Digamos que esta seja uma pantomima chorumélica, planta nativa de Burma oriental. Nela, pousam belas senhoritas como esta que aí se encontra, em arranjo arquitetado ao acaso pela natureza. Aqui, se exprime sem pejo a sexualidade incestuosa das cores irmãs.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Escuta, Zé!

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Vamos deixar esta hipocrisia cristã de lado e admitir logo: estamos nos lixando para os pobres, os deserdados, os fodidos, porque eles são losers, e, ai de nós, este tipo de gente só traz desgraça, maus fluidos, inhaca, ziquizira. Ainda mais porque nós, os modernos, colocados, integrados, wireless people a exibir seus Macs em bares e aeroportos, não suportamos ver o outro lado da moeda, os que catam comida no lixo e perambulam sem rumo pelas ruas da cidade. Na globalização da miséria, este homem poderia estar em Calcutá, Boston, Madri ou Medellín, mas está aqui mesmo, no centro do Rio de Janeiro, e eu, envergonhado, só consegui fotografá-lo de dentro de um carro em movimento. A pé, cara a cara, lente no olho, acho que não teria coragem de fazê-lo.
Bem feito, está vendo só no que dá se meter com os pobres?

terça-feira, 20 de novembro de 2007

E continua linda...

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No feriado de terça, saímos para passear Sofia e eu. Na noite anterior, tinha assistido pela terceira vez ao curta-documentário“City of Splendour”, rodado em 1936 no Rio de Janeiro (se você ainda não viu, corra para ver agora: http://www.youtube.com/watch?v=R23nuppQSRM). Passamos por alguns daqueles logradouros tão plácidos nos anos 30 com os vidros fechados, ar condicionado ligado, alta velocidade. Tive vontade de contar a Sofia que a nossa cidade já foi muito mais linda e amável do que hoje o é, mas calei-me a tempo de ouvi-la dizer, olhando deslumbrada para a paisagem do Aterro do Flamengo: Nossa, papai, que lugar bonito! A minha idade da inocência já se foi há muito, portanto resolvi não interferir na dela. O melhor é que, no fundo, ela tem razão, o Aterro é um lugar muito bonito... O Rio, apesar de tudo, é lindo. E na volta, ao chegar a Copacabana, fomos brindados com este visão do Pão de Açúcar, a rocha incendiada pelo sol do fim da tarde. Não descuidemos da sorte, cariocas: antes, cuidemos de nossa cidade.
PS: Vou pesquisar o diretor do documentário, James A. FitzPatrick. Será que ele rodou mais destes curtas em outras cidades?

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Senhora dos Afogados

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Com os pés atolados na areia molhada, o frio da água a subir-me pelas canelas, ainda assim não duvido: o mar me acalma. É questão antiga, que de há muito alaga meu coração dividido entre as serras mineiras e a languidez copacabanense. Sinto-me em casa no mato, caminho sem medo pelas trilhas seja de dia ou à noite, mas realmente nada se compara ao rumor do mar quando se trata de acalmar ânsias e desvarios. A miríade de cores que o oceano proporciona é simplesmente infinita: azuis, verdes, cinzas e transparências sem fim, conforme pude comprovar em mares do Caribe, travessias do Atlântico, bordas do Mediterrâneo e na maravilhosa costa brasileira de norte a sul.
O mais interessante é que este espírito contemplativo que se instala em minha alma se dá diante de algo em perpétuo movimento. Há nas marés algo que me carrega para o fundo e lá me deixa em sossego, ainda que na superfície as ondas derrubem calçadas, seqüestrem areias e afundem barcos. No embate entre o mar e a terra, estou sempre torcendo por ele, e é difícil ocultar meu regozijo quando uma onda maior se arrebenta contra a calçada e varre a imundície das ruas em água salgada.
Ou seja, a ressaca se sobrepõe à calmaria, o vendaval ao sossego, as marés brabas ao baixa-mar. Esta foto, feita na parte final do Leblon, é minha companheira, padroeira, Santa Bárbara dos Afogados. Tem piedade de mim!